quarta-feira, janeiro 13, 2016

Belém 400 anos e o “escapismo do presente”

Foto: Relivaldo Pinho. Sol ao fim do túnel. 2013. Projeto Fisionomia Belém

"As representações de uma cidade são sempre representações históricas, fantasmagóricas também, e são representações que são feitas de um determinado presente. Então, talvez o modo como a gente represente a cidade tem muito a ver com a maneira pela qual nós tentamos ou não entender o presente. É por isso que talvez nós precisemos desse mecanismo de escapismo do presente e acabamos reordenando a nossa relação com a cidade a partir de determinados marcos, que ou são marcos que remetem a um passado considerado maravilhoso, um passado de progresso, de pujança, de beleza como é o caso da Belle Époque numa determinada época. Não que essa recorrência a esses momentos do passado sejam necessariamente ruim, eu acho que o que é problemático é sempre o modo como essa recorrência e essa construção é feita. Ela é feita em geral para de algum modo descaracterizar a potência e o valor do presente. Então, o presente é uma droga, o momento em que nós vivemos não tem nada de interessante, é muito ruim. A cidade é feia, é suja e usamos esse tipo de imagem como uma espécie de imagem de modelo daquilo que a cidade foi e que deixou de ser, que nós olhamos com nostalgia, para qual a gente muitas vezes a gente usa essa expressão simpática, mas cujo sentido as pessoas em geral não entendem que é 'a saudade daquilo que eu nunca tive... saudade do que eu nunca vivi', que eu acho que é um sentimento que as pessoas idealizam quando escrevem ou quando dizem, mas que é um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado". (Prof. Ernani Chaves no doc. Fisionomia Belém). Tentarei comentar a fala do professor.

Capa 1: ilustrada com um casal em uma dança regional; em outro quadro um casal enamorado olhando para o rio; no seguinte, uma bela moça  comendo um peixe com açaí (sem os lábios sujos, coisa típica nesse ato); e, no último quadro, uma famosa vendedora de ervas do Ver-o-Peso posando com seus apetrechos. Título: “Sons, cheiros e paladares da cidade morena da Amazônia”.

Capa 2: uma enorme arte compara dois momentos de uma das ruas do comércio de Belém. De um lado a época que denota história, um história, provavelmente, do início do século XX, época romanticamente relembrada; do outro lado da arte, a mesma rua repleta do comércio contemporâneo. A idéia era ver a transposição do tempo (sic). Título: “Belém 400: rica em história e cultura (sic), nossa capital merece ser amada. E que venham mais 400!”

Essas são as capas dos dois principais jornais de Belém. Para quem abriu as páginas seguintes viu que lá estão os monumentos, a chuva, as mangueiras, a Belle Époque, a história em fractais comentada por “especialistas”, e celebridades que dizem que “amam” a cidade e a carregam no coração. Tvs (algumas que vivem de exibir o “mundo cão” diariamente) não escapam da mesma abordagem, mídias digitais, publicidade idem.

Sei que esse tipo de abordagem não preocupa apenas a mim e nem é, assim, uma novidade temática. Para mim, abordá-la aqui não é tão prazeroso porque trabalhei com esse tema de modo acadêmico, mas nem sempre a academia é suficiente, nem o blog.

Mas, nesse momento pelo qual são mais do que perceptíveis as mudanças (contemporâneas, que tendem a ser mais “presentes”) pelas quais a cidade já vem passando há pelo menos quatro décadas, é impossível virar as costas para essa data e para o que fazem dela (sim, há exceções http://migre.me/sGlqS , e não é porque estou na matéria e o autor é meu amigo; foi a única li).

O “homem comum” dirá: “mas tem que falar disso mesmo, vamos falar de quê, só de desgraça? Isso já tem todo dia!”; o rapazinho, que sempre ouviu a professora dizer que a “mídia é enganosa”, que acha que entende de meios de comunicação, dirá: “o que esperar desses jornais e TVs capitalistas?”; o menino que ouviu falar de análise do discurso dirá que se trata de um modo superficial de falar da cidade, modo diretamente ligado ao signo que os mass media tendem a enunciar.

Quando vi essas abordagens de jornais TVs, etc. comentei com alguns dos meus amigos e alunos: “estamos lutando, provavelmente contra séculos de discursos sedimentados, consolidados”. Não é apenas porque é uma celebração que deve mostrar apenas o carimbó, também não é apenas porque a mídia é capitalista e nem porque sua linguagem a obriga a isso (e há alguma, não toda, razão em tudo isso).

Mas é também, fundamentalmente, porque esse discurso é um discurso criado muito além (para além (sic)) da mídia (e não estou a dizer aqui que ela apenas o ecoa). É um discurso que atravessou a história (e não falo apenas da Belle Époque) e que, não podendo ser debelado por uma lei, sobreviveu ao tempo (não há espaço para falar de tudo isso aqui). Mas não apenas isso. É um tipo de defesa de um eu coletivo que não consegue se deparar com seu princípio de realidade. Ora, se deparar com a realidade significa abdicar de um mundo onírico (não necessariamente prazeroso) no qual o julgamos, permanentemente, como ideação perfeita, um mundo que, na maioria dos casos, nos encobre o objeto ignorado, seja ele a dor, a perda, a decadência.
Somos miseráveis históricos (“um sentimento muito mais problemático, porque está atravessado por essas imagens de um passado idealizado”), presos a ideações de tempos, objetos e lugares que, a todo o momento, são por nós entoados, porque incapazes de encararmos que se há um adjetivo que pode melhor caracterizar os 400 anos dessa cidade é a noção de decadismo (decadismo também de nossa percepção). Negamos-nos a olhar as múltiplas cidades que surgiram e que nos saltam aos olhos; não percebemos porque o deleite dos tempos de júbilo (prazer) e a “dissociação da realidade” (Simmel, 1902) do cotidiano nos encobre, e continuamos a repetir, compulsivamente, as mesmas ideações (os “entendidos” já perceberam a forte conotação freudiana dessa abordagem – não gritem: é superficial!; porque gritarei que isto aqui não é uma tese acadêmica e, dito isto, como vocês sabem, de tudo posso me defender).

Mas aí, como o “homem comum” anterior, o leitor curioso deve estar se perguntando: “Jornais, Tvs e portais já não mostram essa outra Belém, violenta, suja e abandonada?”. A resposta é não. As representações feitas por esses meios se distanciam, completamente, do que estou dizendo. Não se trata apenas de mostrar essa outra Belém de corpos, pobreza e buracos; trata-se também de mostrar como essa cidade danosa/danificada não é assim apenas pelo “descaso dos governantes”, “da incompetência política”, ou da “falta de vontade política”, esses jargões entoados por esses sujeitos de ternos apertados e idéias frouxas.

É preciso compreendê-la no interior das centenas de movimentos históricos dos quais ela é legatária, da multiplicidade imagética que hoje se ergue como ecos de tempos que permanecem visíveis, insepultos e residuais e com outros se misturam, de entender que cada vez que tentamos “homenagear” uma cidade com seus mesmos símbolos cristalizados, esquecemos de perceber que ao lado da imponente igreja permanece, por décadas, séculos, um lugar de pobreza e decrepitude. Uma cidade contemporânea poderia assim ser vista pelos meios de comunicação? Tarefa difícil, como sabemos. Mas que tal começarmos a exercitar a tarefa de abrirmos fendas na história e, quem sabe, sabermos olhar através delas e poder representá-las.

Pensar que a pobreza da cidade se encontra apenas na periferia e esquecer que é lá, na periferia, que situam alguns condomínios de luxo e mansões (não estou opondo riqueza versus pobreza, por favor – falo de modos de apreensão), como sabemos, é de uma limitação perceptiva aterradora. Pensar que exaltamos a cidade ao demonstrar apenas seus ícones é ignorar que se precisa cada vez mais percebê-la nos matizes (econômicos, culturais, sociais) que hoje são incomensuráveis, o que é de uma falta de distanciamento que assola. 

Olhe pela janela de sua casa. Seu olhar pode cruzar com um prédio neoclássico e atrás dele um gigante de dezenas de andares; vire um pouco o rosto, levemente, e o casebre se cruzará com a casa de vidro repleta de arame farpado; se olhar para rua, talvez, o vendedor de frutas do fim da tarde e a caminhonete de luxo estejam disputando o mesmo espaço. “Os marcos” da cidade ainda existem, mas eles não mais residem sozinhos. Ignorar essa cidade, e não apenas seu cotidiano, é ignorar o presente como modo de aprender a retirá-la de seu manto que a encobre e, mimosamente, a eleva, esquecendo-se que é justamente com o presente e a partir de um presente que podemos dar um salto de "imagens dialéticas" (Benjamin) com a história. Belém, nos seus 400 anos, não pode adotar o “escapismo do presente”.




2 comentários:

Flavio Valentim de Oliveira disse...

Bela analise meu amigo!

Flavio Valentim de Oliveira disse...
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